TALK Paulo Luís Almeida e Carlos Nogueira

R.S.F.F.
Responder se Faz Favor: Arte-como-Instrução
Paulo Luís Almeida
A noção de arte-como-instrução tem as suas raízes no objecto encontrado, no movimento fluxus e nas estratégias situacionistas. Mas dificilmente se pode falar dela como um género, um movimento ou uma estratégia. É um modo: o modo imperativo da arte, no qual a obra se torna um pedido, uma ordem, um convite, um desejo. Resulta da singularidade com que cada artista convoca as formas quotidianas da comunicação — o email, a carta, o cartaz, a receita, o manual, a instrução visual, o acto de linguagem — para ativar uma resposta que já não é contemplativa, mas participada. Cada peça de instrução traz implícito o pedido de uma responsabilidade partilhada, pela qual o espectador é transformado em autor na reinvenção da peça que está por vir, da obra que não foi assim pensada. Mas é também um exercício de contra-cultura que, ao fazer uso indevido dos modelos hierárquicos da comunicação ou das relações tácitas de poder no campo da arte, provoca uma mudança dos seus códigos e do quadro de inteligibilidade que os sustenta.
Em R.S.F.F. procura-se interrogar os modos da instrução como um acto criativo partilhado, aberto ao compromisso e à transgressão, situado na diferença entre o pedido e a concretização, entre o protocolo seguido à risca e o puro jogo.
O que nos leva a participar nestes protocolos e no livre jogo da instrução? O que nos faz ver a imagem ou ler o texto como um convite, uma ordem, uma provocação?

seguida de

Esbanjamento e partilha:
Conversa com Carlos Nogueira
Entre 1979 e 1983, Carlos Nogueira (1947) realizou um conjunto de acções, objectos e desenhos a partir de um modelo criativo singular baseado na instrução, no convite e no desejo. A este modelo de actuação chamou “esbanjamento e partilha”, por oposição à atitude posterior de “contenção e permanência” que marcou o seu trabalho.
A partir de quatro obras realizadas neste período e apresentadas pelo artista — Lápis de pintar os dias cinzentos (1979), Gosto muito de ti, acção de rua (1980), Se eu pudesse dava-te um piano (1980) e Paisagem(s) com vento (1983) — exploram-se as múltiplas variações a que o jogo da instrução se entrega no processo criativo.

31 março 2017
14:30
Aula Magna